O municipalizado Rocha Faria tem graves problemas de manutenção e redução no número de médicos e enfermeiros. Já as UPAs, sob responsabilidade de um quebrado Estado do Rio, sofrerão cortes orçamentários de quase 50%

 

Texto e imagens: Rita de Cássia Costa

 

Filas que chegam a superar as duas horas, pessoas doentes esperando por atenção médica nos corredores ou do lado de fora, diminuição no número de profissionais especializados. O quadro nas unidades públicas de pronto atendimento de Campo Grande não parece ter melhorado muito desde que a prefeitura assumiu o maior hospital da região, o Rocha Faria, diante da completa incapacidade do governo do estado de geri-lo. Em visitas ao hospital e também a UPAs (que seguem sob responsabilidade do Estado do Rio, tecnicamente quebrado), a SUCESSO ouviu pacientes e funcionários e constatou que algumas das reformas implementadas pela prefeitura no hospital ainda não se traduziram em melhorias. Pior: houve, inclusive, redução no número de profissionais disponíveis nos plantões.

Com a transferência da administração para o município, funcionários dizem que as faltas de médicos – antes constantes e que derivaram em algumas denúncias nos últimos anos – têm sido menos frequentes. Mas, em compensação, houve redução no número de profissionais ofertados. A unidade deixou de disponibilizar as especialidades de oftalmologia e otorrinolaringologia, e os clínicos gerais na emergência, antes seis, passaram a ser cinco.

Um funcionário que pediu para não ter seu nome publicado disse serem comuns casos de salas de atendimento com 45 pacientes e apenas dois técnicos de enfermagem para lhes oferecer cuidados diversos: “Existe uma conta que eles fazem para saber a quantidade necessária de enfermeiros e técnicos por paciente, e essa relação girava em torno de quatro técnicos para cada sala com 45 pacientes. Imagine cada um dos técnicos tendo de se desdobrar entre 11 pacientes, para dar banho, trocar fralda, medicação, dar comida e prestar outros auxílios. Agora imagine 45 pacientes para apenas dois técnicos, como tem acontecido! Os pacientes esperam muito mais tempo do que deveriam, e a burocracia da farmácia atrapalha ainda mais o tempo de atendimento.”

Enfermarias também perdem leitos no hospital

Agora administrado pela Organização Social de Saúde Hospital Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ/RJ), o hospital atende cerca de dez mil pacientes por mês. Os novos gestores, revelam funcionários, têm feito obras para tentar recuperar os anos de abandono. Mas a manutenção continua muito longe da ideal. No último dia 21 de abril, parte do teto da emergência pediátrica desabou sobre cerca de dez crianças que recebiam atendimento. Uma médica e dois técnicos de enfermagem também estavam na sala. Segundo a direção do hospital, ninguém ficou ferido.

Funcionários afirmaram que o desabamento do teto de gesso se deveu ao estouro de um cano de água, problema que seria decorrente das intervenções feitas recentemente na unidade. Desde janeiro, duas novas enfermarias foram entregues. O número de leitos, porém, foi reduzido. Antes, cada uma tinha capacidade para 16 pacientes; hoje são 12.

Além disso, foi implantado um sistema de controle biométrico para evitar faltas aos plantões. O pacote de intervenções é chamado pela direção do hospital de “choque de gestão. Nada que tenha sido notado pelos pacientes. “Está exatamente a mesma coisa de antes, não vejo grandes mudanças. Não parece estar faltando médico, mas o tempo de espera está horrível”, lamentou, na primeira semana de abril, Jéssica Benevides, de 22 anos e mãe de dois filhos, que esperava havia quase duas horas sem que seu caçula, de um ano e dois meses e com suspeita de dengue, tivesse ao menos passado pela triagem básica.

O modelo de gestão por Organizações Sociais (OSS), que já vigorava no tempo do controle estadual tanto sobre o Rocha Faria como sobre o Albert Schweitzer, em Realengo, é criticado pelo Sindicato dos Médicos do Rio (SindMed/RJ), Jorge Darze. Na avaliação dele, a transferência das atribuições do poder público a essas entidades se configura como privatização de um serviço  essencial e contribui para a falta de controle. “O que vimos no Rocha Faria foi uma ‘municipalização’ em que apenas houve troca da gestão privada de uma OSS por outra. Esse modelo de gestão tem se revelado, além de irregular, insuficiente para solucionar os graves problemas da assistência à população”, afirma Darze. Ele lembra ainda o grande número de reclamações relacionadas à demora no atendimento, à falta de especialistas e aos desabastecimentos de insumos importantes.

Em entrevista à edição de março da SUCESSO, o prefeito Eduardo Paes afirmou que a OS Hospital Maternidade Therezinha de Jesus havia regularizado o caos empregatício que vigorava sob a gestão estadual. Se, antes, havia cinco vínculos diferentes – estatutários, contratados por fundação, cooperativados, celetistas (contratados com carteira de trabalho) e terceirizados, hoje todos são contratados pela CLT. O sindicato ainda vê problemas e culpa a administração terceirizada pela grande rotatividade da mão de obra.

Paes alegou ainda que a inauguração de 39 clínicas da família desde 2009 ajudou a desafogar as emergências, ao permitir o acompanhamento dos pacientes e a marcação de exames e consultas fora dos pontos mais quentes da rede. Segundo a SUCESSO apurou, apesar de não haver a lotação e as filas registradas no Rocha Faria ou nas UPAs, as clínicas da família também têm esperas de vários dias para atendimento com os médicos “de cabeceira”, que acompanham os pacientes.

A Secretaria municipal de Saúde sustenta que o Rocha Faria está passando por uma “transição” que derivará em melhoras sensíveis. O órgão promete investimentos de R$ 15 milhões “para os próximos meses”, sendo R$ 7,3 milhões apenas para a emergência, bem como a compra de equipamentos como tomógrafo, autoclaves (aparelhos para esterilização de instrumentos), lavadoras ultrassônicas e camas de pré e pós-parto. Além disso, novos profissionais devem ser incorporados ao quadro médico, promete a prefeitura, sempre sem fornecer datas precisas. Sobre o fim do atendimento de oftalmologia e otorrinolaringologia, a secretaria comentou, em nota: “O Hospital Municipal Rocha Faria não tinha equipamentos para exames e procedimentos nessas especialidades, ofertando, portanto, apenas consultas simples. Quando havia necessidade de cuidados mais específicos, os pacientes eram transferidos para unidades de referência nessas especialidades.”

Nas UPAs, pacientes saem até sem diagnóstico

“Chegamos por volta das 10h e não tivemos nenhum tipo de atendimento. Pensei em levá-lo à UPA do Cesarão, lá em Santa Cruz, que soube que estava vazia, mas tive medo por causa da violência de lá. Depois de esperar tanto, viemos para o Rocha Faria mesmo.” Celso Aloízio de Oliveira, 59 anos, que se surpreendeu ao levar à UPA Campo Grande I seu filho Cassiano, com o pé machucado a caminho do trabalho. | Foto: Rita de Cássia Costa

“Chegamos por volta das 10h e não tivemos nenhum tipo de atendimento. Pensei em levá-lo à UPA do Cesarão, lá em Santa Cruz, que soube que estava vazia, mas tive medo por causa da violência de lá. Depois de esperar tanto, viemos para o Rocha Faria mesmo.”
Celso Aloízio de Oliveira, 59 anos, que se surpreendeu ao levar à UPA Campo Grande I seu filho Cassiano, com o pé machucado a caminho do trabalho.
| Foto: Rita de Cássia Costa

Além de grande parte dos moradores de Campo Grande, bairro mais populoso da cidade, o Rocha Faria também atende muitos pacientes de Guaratiba e Bangu, entre outras áreas da Zona Oeste. A superlotação do hospital poderia ser minorada caso a operação das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), criadas e geridas pelo estado para atuar em casos de baixa e média complexidades, fosse satisfatória. Não é o que ocorre.

Na primeira semana de abril, o guarda municipal Celso Aloízio de Oliveira, de 59 anos,  surpreendeu-se ao levar à UPA Campo Grande I (Estrada do Mendanha) seu filho Cassiano, que machucou o pé enquanto ia para o trabalho: “Chegamos por volta das 10h e não tivemos nenhum tipo de atendimento. Pensei em levá-lo à UPA do Cesarão, lá em Santa Cruz, que soube que estava vazia, mas tive medo por causa da violência de lá. Depois de esperar tanto, viemos para o Rocha Faria mesmo”, afirmou. Os dois chegaram ao hospital às 14h e foram atendidos só uma hora e meia depois.

Na UPA Campo Grande II (Avenida Cesário de Mello), pacientes relatam um tempo de espera menor, de, em média, 40 minutos. Mas a qualidade do atendimento é alvo de muitas queixas. Priscila Rodrigues de Carvalho, moradora de Campo Grande, levou o filho Bernardo, de apenas 3 anos e com febre alta, até lá, mas teve de voltar para casa sem um diagnóstico. Médicos e enfermeiros foram incapazes de dizer o que ocorria com a criança. “O atendimento é o mesmo! Esperava sair daqui ao menos sabendo o que meu filho tem”, protestou.

O sistema já precário deve sofrer ainda mais desfalques. O secretário estadual de Saúde, Luiz Antônio Teixeira Júnior, admitiu no fim do ano passado não ter verba para sustentar a rede de 29 UPAs estaduais. Segundo informação confirmada pela secretaria ao jornal “Extra”, a rede deve sofrer um corte de quase 50%: de R$ 1,9 milhão por mês para cada UPA, o repasse passará a ser de cerca de R$ 1 milhão. Quase metade das unidades deve passar por modificações, restringindo-se a atendimentos especializados. Assim, uma determinada UPA assistirá apenas crianças. Outra, apenas adultos. Essa, sustenta a Secretaria estadual de Saúde (SES), é “uma tendência mundial”, mas também, admite, uma medida extrema para reduzir custos num momento em que o Rio de Janeiro atravessa sua mais severa crise em décadas, agravada pela queda nos preços internacionais do petróleo e do gás, commodities que respondem por nada menos que um terço do PIB do nosso estado. “Além de garantir o atendimento à população, (a opção pela especialização) é uma medida essencial para a redução do custeio, tendo em vista o atual cenário econômico do Rio de Janeiro e do país”, informou a SES em nota.

Ainda segundo a secretaria, as duas unidades de Campo Grande atendem, juntas, uma média de 700 pessoas diariamente, com ênfase em pediatria e clínica médica. Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SinMed/RJ), reduzir o atendimento nessas unidades trará enormes prejuízos à população, além de aumentar a demanda nos hospitais: “O SinMed/RJ já está com uma ação civil pública preparada para ser ajuizada”, promete Jorge Darze. “Precisamos garantir o pleno atendimento em todas as UPAs.”