Setor de franchising dribla o mau momento econômico do país e se expande 8,5% em 2015. Métodos de produção e organização superprofissionais explicam o sucesso, e o melhor é que você pode implementar essas boas práticas no seu negócio, mesmo que não seja uma franquia

Em plena recessão, com queda de 3,8% no produto interno bruto (PIB) do país em 2015 e aumento de 25% na taxa de desemprego (para 8,5% da população economicamente ativa, segundo o IBGE), chamou a atenção do mercado um dado positivo recém-divulgado por um setor que parece imune à crise. O faturamento das franquias saltou 8,3% no ano passado em todo o Brasil – espantosos 14,2% no Estado do Rio –, e até mesmo o número de empregos no setor destoou do contexto negativo geral, com a abertura de mais de 90 mil vagas. Para representantes do mundo das franquias, associados da ACICG entre eles, o que explica o desempenho excepcional são as técnicas de administração altamente profissionalizadas, o permanente enxugamento de custos por meio de melhorias nos processos, o investimento em reciclagem e pesquisas de mercado, a padronização no atendimento, o acompanhamento sério de metas e outras boas práticas de gestão que você pode implementar na sua empresa mesmo que ela não seja uma franquia.

O presidente da seção fluminense da Associação Brasileira de Franquias (ABF-Rio), Beto Filho, explica à SUCESSO que o primeiro passo é conhecer em detalhes o próprio negócio, o que, acredite, nem sempre acontece. Um empreendimento isolado, familiar – seja ele uma papelaria, uma farmácia, uma academia de ginástica, uma loja de roupas ou um pequeno restaurante – muitas vezes sequer sabe ao certo quais produtos ou serviços oferecidos fazem mais sucesso junto ao público ou qual a percepção dos consumidores sobre a marca. “Quem compra? Quanto compra? Qual o potencial de expansão? E onde se pode enxugar para aumentar a margem de lucro? Você precisa saber questões fundamentais. E, para isso, é obrigatório ouvir o cliente, analisar seus hábitos de compra. Achômetro não adianta nada. Você precisa ter sempre tudo na ponta do lápis”, afirma.

É contraproducente, ele continua, apegar-se a tradições sem razão prática. “Um restaurante que oferece 300 pratos porque ‘sempre foi assim’ precisa otimizar, passar a oferecer, digamos, só os 150 mais vendidos. Estar disposto a mudar para se adaptar é vital para sobreviver.”

As franquias costumam elaborar detalhados manuais para padronizar as operações. No caso de uma rede de lanchonetes, por exemplo, é importante que o hambúrguer tenha o mesmo sabor no Rio ou numa pequena cidade no interior da Região Norte do país. Por isso, a temperatura e o tempo de preparo, a marca e o tipo da chapa, quanto a carne deve ser cozida de cada lado… tudo isso importa muito. O dono de um negócio que quer manter um padrão de qualidade similar precisa escrever seu próprio manual, estabelecer os procedimentos – da iluminação e da decoração às expectativas e aos scripts de vendas – ponto a ponto, preto no branco. Isso ajuda a cobrar as metas dos empregados – e é uma excelente arma para o próprio dono não se esquecer, em meio às atribulações do dia a dia, o que funciona e o que não funciona.

De Campo Grande para todo o Brasil

Se você ainda não chegou a abrir seu negócio, qualquer que seja ele, um dos maiores empreendedores (e franqueadores) da nossa região ensina uma dica importante: antes de mais nada, busque incansavelmente a melhor localização possível. O associado Clodoaldo Nascimento, presidente do curso de idiomas Yes!, costuma repetir que, para ele, o conhecido conceito dos 4Ps da boa gestão (propósito, processos, pessoas e políticas) tem outro significado: ponto, ponto, ponto, ponto. Ele dá especial atenção ao endereço de uma nova unidade pois crê que a visibilidade é o primeiro passo para o sucesso. Quem já se aventurou no mundo do comércio ou dos serviços sabe bem do que Nascimento fala: afinal, abrir uma loja numa zona erma ou meramente residencial não é o mesmo que estar no Calçadão de Campo Grande…

O Yes!, com os pés fincados aqui, hoje é uma das dez maiores redes do setor no Brasil, com franquias espalhadas por 15 estados e mais de 170 unidades. E Nascimento tem como meta visitar pelo menos cinco delas a cada mês para ver de perto como a coisa anda. Empreendedor com talento para as vendas inscrito no DNA, ele quase desistiu, lá em 1988, quando ainda trabalhava para outra rede de escolas de línguas e não conseguia vender como os demais. Seu gerente, que já havia enxergado nele uma aptidão ímpar para o negócio, não o deixou sair. “Ele investiu em mim, me levou a campo para mostrar como deveria ser minha abordagem com o público”, contou ao grupo Mapa das Franquias, que reúne bons exemplos do setor. “A liderança dele foi crucial para mim, porque, a partir daquele dia, passei a enxergar as vendas com outros olhos.”

No ano seguinte, Nascimento já estava no Yes! a convite da rede, então ainda muito menor. Com vendas cada vez melhores, foi subindo até se tornar gerente e, por fim, proprietário de diferentes unidades. “Com a morte do fundador, as herdeiras optaram por vender a operação”, descreveu o empreendedor ao lembrar sua grande chance: a aquisição do negócio e a presidência da rede.

Quer se aventurar? Há oportunidades a partir de R$ 3 mil

Você pode não ter o mesmo talento de Clodoaldo Nascimento para as vendas. Nem, muito menos, tanta bala na agulha para criar sua própria rede. Mas, se tiver espírito empreendedor, segundo a ABF-Rio, já tem meio caminho andado. Hoje, o segmento das microfranquias, que exigem investimentos a partir de R$ 3 mil, é um dos mais promissores nesse universo. Um exemplo de uma franquia a esse preço é o da start-up que atua no segmento de propaganda via mensagens de texto SMS Mode. Com R$ 3 mil você adquire uma representação. Beto filho cita outro: “Com a chancela da fabricante de piscinas Igui, uma franquia de serviços de limpeza de piscinas está se expandindo ao implantar sistemas padronizados, dar treinamento aos profissionais… E custa R$ 9 mil para se tornar um franqueado. O mundo das franquias é tão variado que você tem casos assim e tem outros de hotéis, hospitais, com investimento de R$ 10 milhões. O importante é saber o que quer fazer e como chegar lá.”

A própria associação dá um empurrão a futuros franqueados, em cursos presenciais de apenas um dia nos quais são abordados temas relativos a gestão, leis, sistema financeiro, oportunidades de financiamento etc. No site da entidade (www.abf.com.br/abf-rio-pagina/) você pode conferir quando serão oferecidas as próximas turmas.

Sozinho ou franqueado? Eis a questão

A qualificação por meio de um curso foi fundamental na ascensão de Luciana Sampaio, uma das mais bem-sucedidas franqueadas da rede de centros de estética Embelleze. Associada da ACICG e dona das filiais de Campo Grande, Bangu, Itaguaí e Santa Cruz, a iguaçuana já morou em Rondônia e na Alemanha, trabalhou como cozinheira e vendedora… Mas foi só depois de fazer um curso na área de beleza que prosperou. Primeiro teve um pequeno salão sem ligação com a rede Embelleze. No início, não sabia lidar com dinheiro, planejar, organizar os funcionários. Teve dificuldades. “Comecei a frequentar cursos de apoio a micro e pequenos empresários e adquiri postura de empresária. Isso fez com que os empregados me respeitassem, e o negócio, enfim, deslanchou”, lembrou em depoimento ao instituto.

Ela optou por adquirir a primeira franquia por conta da rede de apoio que há por trás e dos métodos organizados de trabalho e cumprimento de metas. Virou uma defensora do modelo.

Em sua trajetória, Luciana demonstrou ter o que, para a especialista Lyana Bittencourt, diretora de marketing do Grupo Bittencourt de apoio a franquias, são as principais características de alguém que milita nesse universo – e que podem ser reproduzidas por qualquer um que espera prosperar nos negócios: liderança e proatividade. “Liderança se traduz em focar um relacionamento próximo (com clientes, subordinados, parceiros), as soluções de conflitos. A proatividade vem com inovação no negócio e nos produtos, o direcionamento das metas”, ela enumera. A fórmula é conhecida, não tem muito segredo; só depende de você.