Zonas de comércio e imediações de estações viram camelódromos cada vez maiores, trazendo concorrência desleal para empresários da região; ações de repressão da prefeitura são insuficientes para conter o problema

Ao lado das estações Campo Grande e Inhoaíba. Ao longo de toda a Augusto de Vasconcelos. No encontro das ruas Aurélio de Figueiredo e Iaçu, junto à rodoviária. Não há grande ponto de afluxo de pessoas, hoje, em Campo Grande, sem uma concentração perceptivelmente maior de camelôs. Será a crise. Será a fiscalização falha e incerta. O fato é que a concorrência desleal do comércio irregular já castiga empresários legalmente estabelecidos, que pagam impostos e veem suas vendas minguarem enquanto, muitas vezes, oferecem-se produtos similares na calçada em frente. As próprias fachadas das lojas chegam a ser escondidas pelas barracas, como a SUCESSO constatou numa blitz que flagrou a presença de muitos camelôs em zonas de comércio da região, principalmente depois do anoitecer.

No Calçadão, os ambulantes mal esperam o fechamento das lojas para começar a ofertar seus produtos. Relógios e roupas contrabandeados, bijuterias, CDs piratas e outros itens que não pagam impostos e são trazidos ao Rio por intermédio de máfias internacionais saem por preços mais baixos dos que nas lojas formais e atraem a atenção de consumidores no horário da volta para casa. Nas vizinhanças das estações, barracas de alimentos sem controle sanitário fazem concorrência direta com as lanchonetes bem em frente. Na região da rodoviária, mais barracas de comida e de quinquilharias – lanternas, pilhas, utensílios de cozinha, material escolar. Um camelô abordado pela reportagem admite que o material que vende é oriundo de caminhões “tombados” – muitas vezes atacados – que cruzam comunidades de bairros limítrofes à Avenida Brasil. Ou seja, fruto de roubo.

O problema é geral, admite a prefeitura, e castiga a cidade toda. Mas em Campo Grande, antes uma das zonas mais “protegidas” do comércio irregular sistemático, é notável o aumento do número de barracas. A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) afirma ter intensificado as operações – foram 16 desde o início do ano. Questionado, o órgão prometeu que intensificará nos próximos dias o controle nas regiões mencionadas.

Mas a fiscalização diária, a que efetivamente coíbe a presença dos irregulares, é quase inexistente. Com oito guardas municipais lotados numa pequena unidade da força em Campo Grande, cujas imediações roçam os 485 mil habitantes, segundo estimativa estatal, não há braços suficientes para o controle permanente.

Segundo a prefeitura, ano passado foram levadas a cabo 56 operações para reprimir o comércio ilegal. Mas, como a abordagem repressora não deve ser a única, uma vez que a escolha da atividade irregular por parte dos camelôs supõe falta de alternativas, o poder público ainda deve um plano eficaz de integração dessa massa trabalhadora. A prefeitura implantou ano passado, em parceria com o Sebrae, um projeto de licenciamento rápido de atividades comerciais, o Rio Mais Fácil. Porém, poucos camelôs estão aptos a requisitar a legalização por meio do sistema, uma vez que muitos atuam em zonas cujo comércio de rua é vedado por lei. Na prática, o Rio Mais Fácil teve, segundo uma fonte interna da prefeitura, pouco impacto sobre o comércio ambulante na região.

Enquanto isso, a repressão esbarra no cobertor progressivamente mais curto das forças de segurança. Como as operações contra o comércio irregular muitas vezes contam com a presença de policiais, dado o potencial de conflito violento envolvendo as remoções, teme-se que seu número e sua frequência caiam ainda mais. É que, por determinação da Secretaria estadual de Segurança Pública, houve redução de, em média, 30% no número de viaturas e de 20% no total de policiais civis em diligências em todo o estado, reflexo da maior crise financeira fluminense em décadas. Autoridades policiais admitem que o combate a crimes contra a vida tem sido a prioridade, o que já se reflete num aumento no número de roubos, por exemplo. É o que você confere a partir da página 34.

 

Foto: Ully Stella