TENENTE-CORONEL MARCOS NETO, comandante do 40º BPM

Desde meados de abril à frente do 40º BPM (Campo Grande), o tenente-coronel Marcos Neto assume com o desafio de conter a alta no número de homicídios experimentada na região nos últimos meses. Oriundo do 41º BPM (Irajá), ele aposta em ações de inteligência e gestão criativa, admitindo que o déficit grande no número de homens e mulheres lotados em sua unidade atual (355, contra os cerca de 900 que seriam necessários) impacta na qualidade do patrulhamento das ruas.

Estamos vivendo uma expansão alarmante no número de homicídios na região. Qual a resposta do batalhão diante desse salto?

Tivemos dez homicídios em abril. Em maio já reduzimos para três. A polícia como um todo trabalha para diminuir a letalidade, e aqui também. Tem muita conversa, tem um planejamento rígido, estamos provocando essa queda. Em janeiro houve problema com milícia em várias zonas e traficantes da Carobinha, que resultou em algumas das nove mortes da região. Mas temos feito muitas blitzes, 20 pontos de operação em sistema carrossel, diariamente. Isso dificulta o trânsito de bandidos de outras regiões que vêm para cá.

O número de roubos a transeuntes disparou 20% de janeiro a abril. Mas os furtos tiveram queda. O que pode ter provocado isso?

Os bandidos podem ter a sensação de que está mais fácil roubar, ante o déficit de policiais nos batalhões, algo que acontece não só aqui mas em outras unidades. E pode ser reflexo da repressão a outros crimes, como tráfico de drogas e roubo de cargas. Porque esses crimes, hoje, estão relacionados.

No dia a dia, os PMs na rua ficam parados em pontos? Como é essa dinâmica?

Temos pontos em que têm que ficar baseados por determinada razão. Temos as radiopatrulhas que atendem às chamadas do 190. Temos patrulhas especiais, que atuam caso as radiopatrulhas não possam. Têm demandas específicas, como fechamento de área, para impedir a chegada de bandidos de certas regiões, por exemplo. Alguns pontos têm de ter visibilidade, como o ParkShopping, a descida do Extra, Rio-São Paulo, Arthur Rios, Estrada da Posse, Mendanha… Nesses locais há viaturas em determinados horários, planejados. Não ficam baseados ali, têm sistema de carrossel, revezam-se entre esses pontos..

Em meio à maior crise financeira e de gestão do Estado do Rio em muitos anos, como se virar com os 355 policiais quando seriam necessários 900?

É difícil, mas não impossível. Não adianta eu reclamar para o meu comandante que não tenho policial. O cidadão quer o serviço, quer polícia na rua, tenho que oferecer. Então temos que dar um pouquinho a mais. Temos 95% dos policiais do batalhão morando na região. (Digo a eles): se você sair à rua no dia de folga, com a família, quer ter tranquilidade, não? Então aborde mais, faça mais no dia de serviço. Isso aqui é sacerdócio. Todo mundo tem que dar algo mais. O salário atrasou? Não vou deixar de trabalhar por isso.

O salário tem atrasado?

O estado todo tem passado por isso. Recebíamos no segundo dia útil, passou para o décimo. Por enquanto estão pagando (em junho, depois da entrevista, o estado anunciou o parcelamento dos salários e, alguns dias mais tarde, decretou estado de calamidade pública pela crise financeira).

O senhor fala em sacrifício e sacerdócio, e é interessante porque muitas pessoas na sociedade têm uma imagem muito ruim da PM, por tantos casos de extorsões, de execuções e de más condutas variadas. Como tornar o policial mais simpático aos olhos dos cidadãos?

Nosso objetivo não é torná-lo mais simpático. É torná-lo profissional. Temos aqui o plano de premiar os que mais se destacaram. E não os que mais mataram ou maltrataram. Olhamos os elogios, temos página do Facebook do batalhão, com muita interação. Apresentação pessoal, maneira como se dirige a alguém, com educação, bom-dia, boa-tarde, obrigado. Não se trata de  limpar a imagem. É ser entendido como um bom profissional. A sociedade precisa deixar de nos associar a repressão, ditadura…

Mas é inegável que muitos policiais ainda agem como se estivéssemos em ditadura. São arrogantes, são opressores, não protetores, desvirtuando sua missão…

Não tenho dúvida disso. Mas garanto: é da formação pessoal dele, não se ensina isso aqui. Ausência de valor, de alicerce, de fundamento familiar pode atingir todo mundo. Mas a instituição procura interromper esse tipo de comportamento.

Já houve prisão de PMs daqui no passado ligados a milícias. É uma preocupação ainda?

Sem dúvida. Muitos foram excluídos, presos. Aqui, até o presente momento, não tenho indicador de policial envolvido com milícia. Pode ser que tenha? Sim. Monitoramos evolução de patrimônio, denúncias, comentários… Até agora não tivemos nada.

 

Na 35ª DP, esforço e criatividade para debelar a crise

Diferentemente do que ocorre no batalhão, na 35ª DP a crise atingiu em cheio o fornecimento de insumos: falta de caneta a papel higiênico, de papel de impressora a sabão e grampo de papel. A faxina só está sendo feita, alguns dias por semana, graças a uma vaquinha entre os próprios policiais. Já não há um síndico, o administrador que cuidava dessas demandas administrativas, e o delegado-titular, Marcelo Ambrósio, precisou destacar dois investigadores para isso. Naturalmente, como ele admite, houve impacto nas investigações, com ainda menos profissionais disponíveis.

“Amigos e empresários da região estão ajudando. Passam, doam detergente, papel higiênico, papel de impressora…”, diz o delegado. A única impressora em funcionamento, aliás, foi incorporada ao patrimônio da delegacia após uma doação. É uma profissional, que, usada, custa R$ 7 mil. “Não adianta o cidadão de boa vontade trazer aquela caseira, de R$ 400, que não vai ajudar. O volume de papel que imprimimos ao registrar uma ocorrência e fazer nossas atividades é enorme.”

O corte nas horas extras, que impactou no total de policiais por plantão, foi contornado em parte por uma ideia criativa da equipe do delegado. A Delegacia On-Line, projeto criado ali, já representa 30% das ocorrências. Por meio do endereço policiacivil.rj.gov.br, o próprio cidadão pode registrar a ocorrência e ter uma hora marcada para continuar as tratativas na própria delegacia. “Colocamos inclusive terminal exclusivo para o cidadão registrar aqui mesmo, caso não tenha computador ou internet em casa”, diz Ambrósio, que aposta em maior interação com o cidadão para debelar a crise.

 

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