Meninos e meninas da nossa região são tidos como promessas do esporte e brilham apesar da falta de investimento e das dificuldades

Por Rita de Cássia Costa

Foto: Francisco Araújo

Brilho nos olhos e aquela ansiedade de quem quer conquistar o mundo. É assim que duas das grandes promessas do futebol na região, Yan Carlos e Christyan Ferreira, de 10 e 12 anos respectivamente, se apresentam. Mesmo com a pouca idade, os dois meninos de sorriso frouxo já carregam a responsabilidade de atender às expectativas depositadas sobre eles. Destaques entre os mais de 130 garotos de 6 a 15 anos no projeto Escolinha do Léo Moura, eles são tidos como promessas do esporte. Como os dois, muitos meninos e meninas vivem o espírito olímpico na nossa região e sonham com a glória – apesar das lendárias falta de estrutura e de incentivo que deixam pelo caminho tantos talentos esportivos nacionais.

Os dois meninos, que moram na região do Vilar Carioca, em Inhoaíba, chegaram ao projeto há dois anos, assim que foram iniciadas as atividades da Escolinha por aqui. Mesmo sem acesso a bons campos de treinamento e a qualquer incentivo financeiro, eles forjaram um talento inato, que chama a atenção dos treinadores. Hoje lutam para conseguir uma vaga nas divisões de base do Flamengo.

“Eu fico muito feliz quando dizem que sou uma promessa porque é uma chance que eu tenho de jogar em times grandes. Mas eu preciso ter garra, me dedicar e mostrar talento. Daqui a 10 anos me vejo jogando futebol e conquistando a Copa do Brasil”, diz Yan, reproduzindo discursos de grandes jogadores, como seus ídolos Nenê e Cristiano Ronaldo.

As dificuldades financeiras permeiam as histórias de praticamente cada um dos futuros atletas de alto rendimento da região. Treinando no Centro Esportivo Miécimo da Silva, Gabriela da Silva Matos, de 16 anos (basquete); Adrielle da Silva, 12 anos (ginásticas rítmica e artística); e Débora Ramos, de 21 (atletismo), compartilham obstáculos que, mesmo duros, não as desanimam. Gabriela, que começou há apenas dois anos e já se destaca, enfrenta problemas até mesmo para chegar ao treino. A jovem, que está no ensino médio mora, com a mãe, dona de casa, e vive da pensão deixada pelo pai já falecido. “Minha mãe é minha incentivadora, não me deixa desistir, mas é complicado. Eu deixo de vir ao treino em alguns dias, porque só tenho carona às terças e quintas. Minha escola está ocupada e não tenho como recarregar o cartão escolar que me ajudava antes”, lamenta.

Adrielle se entristece por não ter apoio do pai. Ela treina há 7 anos e participa de inúmeras competições que demandam muito dinheiro para os padrões da família. As despesas ainda dobram, já que sua irmã, de 15 anos, também está seguindo seus passos na ginástica. A mãe, Adriana da Silva, bate o pé e acompanha a filha por todo canto, mesmo que isso gere ainda mais custos diários para a família. Adrielle vai ao Miécimo de terça a sexta para treinar em todas as modalidades que pratica. Hoje, a pequena atleta está nas equipes de competições do centro nas modalidades de ginástica olímpica, artística e balé.

Enquanto elas enfrentam a longa rotina antes de conseguir um patrocinador – um dos principais motivos que levam à desistência de potenciais atletas -, Débora está em busca de sua primeira competição fora do país. Qualidade ela já tem, basta ver sua coleção de troféus e medalhas, que ela mostra com orgulho pela tela do celular. O que falta, mais uma vez, é o dinheiro. Para tentar solucionar, decidiu rifar uma bicicleta com a qual tinha sido premiada em uma competição na semana anterior: “Os principais problemas são financeiros mesmo, precisamos de parceiros. Eu quero me preparar para os próximos Jogos Olímpicos e competir”, diz, determinada.

O trabalho é duro, mas cada vitória torna mais doce esse caminho de pedras. Jéssica Louise, hoje jogadora da seleção brasileira na categoria júnior, pode dizer isso com toda a certeza. A jovem começou no handebol em 2011, na escola onde estudava, no Jardim Maravilha. De lá para cá, competiu por diversos colégios e, hoje, treina e compete pela Força Aérea Brasileira. Na sua coleção de glórias, destaque para o Campeonato Pan-Americano da modalidade. Em 2020, nas Olimpíadas de Tóquio, terá grandes chances de defender o país, com a renovação das atletas da seleção feminina. “Quero muito estar nos próximos Jogos, então treino muito. Faço treinamentos físicos, além de acompanhamento alimentar”, explica a atleta de 20 anos.

Caso integre mesmo a Seleção, ela repetirá as trajetórias de duas atletas de ponta da nossa região que já realizaram seu maior sonho: disputar os Jogos Olímpicos do Rio, no mês que vem. A SUCESSO conversou com elas, Gilda Oliveira, lutadora de 32 anos, e Clarissa dos Santos, jogadora de basquete de 28. Em comum a elas e aos meninos que ainda dão seus primeiros passos, a superação diária de muitas dificuldades, alimentadas por um único objetivo: o ouro.


Miécimo, o maior ‘pódio’ da nossa região

Centro Esportivo é peça vital na formação de atletas locais, mas enfrenta problemas

Os depoimentos de atletas e futuros atletas ouvidos pela SUCESSO não deixam dúvidas: o Centro Esportivo Miécimo da Silva tem um lugar de extremo destaque na formação de esportistas e cidadãos na nossa região. Criado em 1982, é mantido pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer e oferece 54 modalidades a 9.600 alunos inscritos. A sua infraestrutura, porém, está aquém da importância do espaço para os novos talentos da região.

Tendo assumido há apenas dois meses, Thiago Barros, novo diretor, tem grandes ambições com relação ao espaço e promete integrar alto rendimento, lazer e qualidade de vida nas atividades oferecidas pelo lugar. O principal problema a ser encarado é a infraestrutura: falta de ar-condicionado, banheiros deteriorados e pista de atletismo e campo em condições ruins são alguns dos obstáculos dessa corrida.

“Pegamos o centro esportivo em uma situação complicada, foram muitos anos sem a atenção que o lugar merece. Está muito difícil em questão de estrutura: não tem água quente, não tem porta no banheiro… Estava em uma situação rumo ao sucateamento. Já estamos dando uma outra cara aqui dentro, e um dos objetivos é trazer de volta a população para cá”, afirma Thiago.

Entre as medidas já tomadas, ele destaca a diminuição da burocracia para usar o espaço, além da reserva de 20% das vagas para estudantes da rede pública. A proposta de Thiago é restabelecer o propósito de inclusão através do esporte, pilar de fundação do Miécimo. Para concluir seus projetos de reestruturação e melhorias no atendimento à população, ele calcula dois anos – mesmo em um período de eleições que talvez possa comprometer a sua gestão.

Atualmente, Thiago também cede o espaço, garantindo parcerias com empresas, revertendo o dinheiro arrecadado em materiais fundamentais para o espaço e incorporando doações ao patrimônio, a fim de deixar um legado. Se você quiser ajudar o Centro Esportivo Miécimo da Silva, pode entrar em contato por meio do telefone 3316-3987.