Profissionais negociam serviços diretamente com consumidores por meio de plataformas da chamada economia criativa. Entenda por que o setor vive um boom

Por Sérgio Matsuura

Desde que chegou no Rio de Janeiro, vindo da Paraíba, o encanador João Batista, de 43 anos, vive de “bicos”. Ele presta serviços variados, de pedreiro a encanador, mas encontrar trabalho, até pouco tempo atrás, não era fácil, dependia do boca a boca. Hoje, a maior parte de seus clientes é formada por desconhecidos, contratados por meio de uma plataforma digital que une consumidores e prestadores de serviço.

“Antes era difícil que o cliente me encontrasse”, conta Batista, que praticamente abandonou as empreitadas para se dedicar aos pequenos serviços do dia a dia, agora numerosos. “Eu fazia mais obras demoradas, que pagavam bem, mas demoravam para aparecer. Agora faço mais pequenos reparos, que aparecem todos os dias.”

O exemplo de Batista é seguido por milhões de pessoas em todo o mundo, que encontraram em plataformas digitais uma nova forma de se conectarem diretamente com os consumidores, num movimento conhecido como economia colaborativa, na qual os intermediários são substituídos pela internet.

 

Projeto no Congresso pode criar nova cultura

E, com a transformação do mercado de trabalho, com a precarização do emprego como conhecemos, esse tipo de solução tende a ganhar cada vez mais espaço. Tramita no Congresso a chamada Lei de Terceirização, que permite a uma empresa contratar outra para a realização de serviços. Caso seja aprovada, ela pode criar uma nova cultura de negócio, onde profissionais são contratados para a execução de projetos específicos, sem a necessidade de vínculo empregatício.

“Essas plataformas dão uma alavancada empreendedora nas pessoas”, avalia o empreendedor digital Celso Fortes, fundador da agência Novos Elementos. “Seja por necessidade econômica ou para gerar renda extra, elas abrem espaço para encontrar clientes. Ainda mais em momentos de crise.”

Hoje, praticamente qualquer serviço pode ser contratado desta forma, em diversas plataformas. No caso de Batista, o contato é feito pela brasileira GetNinjas, focada em pequenos serviços domésticos e de consultoria, mas trabalhos que requerem alto grau de especialização também estão disponíveis na web.

 

Até a Nasa já recorre a essas plataformas

Fundada em 2009, a australiana Freelancer.com possui mais de 20 milhões de usuários cadastrados em todo o mundo, com ofertas de serviços em 900 categorias, que vão desde tarefas mais simples, como traduções de textos e construção de websites, a elaborados projetos de engenharia aeroespacial. No início do ano, a Nasa realizou uma seleção dentro da plataforma para a contratação de um projeto para a construção de novos robôs para a Estação Espacial Internacional.

“Isso é importante não apenas porque a Nasa é a Nasa, mas por ser um órgão do governo americano que está incorporando essa nova forma de trabalho. É um selo de validação”, diz Sebastián Siseles, diretor internacional da Freelancer.com. “E o interessante é que qualquer pessoa do mundo pode participar. Ela pode estar no Rio de Janeiro, elaborando um projeto para a Nasa.”

A possibilidade de contratar profissionais em qualquer lugar do mundo pode ser aproveitada para projetos urgentes. O contratante pode, por exemplo, buscar serviços em países com fuso horários diferentes, e manter o projeto em andamento ao longo das 24 horas do dia.

“Os limites geopolíticos não existem mais com a internet”, afirma Siseles. “Qualquer um pode manter a empresa trabalhando 24/7, 365 dias no ano, contratando pessoal do outro lado do mundo.”

Além das possibilidades para o profissionais e empresas em busca de serviços, a economia colaborativa abre espaço para pessoas atrás de uma renda extra. O Airbnb talvez seja o exemplo mais conhecido neste setor. Ele permite que qualquer pessoa ofereça um cômodo em sua casa para viajantes, por preços mais baixos que os da rede hoteleira. Ganha o hóspede, que gasta menos dinheiro; ganha o anfitrião, que consegue um trocado a mais por um espaço que só gerava custos; e, claro, ganha a plataforma, que fica com uma porcentagem do valor negociado.

Seguindo esse modelo, o brasileiro Fleety permite que donos de carros aluguem seus automóveis para terceiros, também por valores menores que os das locadoras tradicionais. Guilherme Nagüeva, responsável pela estratégia digital da companhia, explica as vantagens da plataforma.

“O proprietário consegue uma renda extra com um bem valioso, mas que só gerava despesas”, diz Nagüeva. “Do outro lado, o locatário consegue um carro de forma ágil, sem o cheque-caução ou bloqueio do limite do cartão de crédito.”

 

Recomendações são fundamentais

Assim como em outros sites do tipo, o Fleety aposta nas recomendações dos usuários, que ajudam a aumentar a segurança dos contratantes e contratados. Além disso, a empresa garante o seguro do automóvel durante o período de locação e valida os cadastros apenas com cartão de crédito válido. Em 2015, primeiro ano de funcionamento, mais de mil locações foram intermediadas pela ferramenta, volume batido apenas nos três primeiros meses de 2016. “Existe uma barreira cultural, que aos poucos está sendo superada”, avalia Nagüeva.

Essa é a mesma percepção de Tiê Lima, cofundador do Enjoei, plataforma para oferta de produtos de segunda mão. Dados levantados pela empresa mostram que 70% das pessoas que usam a ferramenta para vender, nunca tinham oferecido um item pessoal pela internet antes.

“Isso mostra uma forte disposição a participar de coisas novas. Sem dúvida alguma, o consumidor brasileiro é muito disposto a experimentar”, diz Lima. “Mas, para isso ser sustentável, é preciso criar uma estrutura que gere segurança. Desde a tecnologia ao atendimento, sem deixar de passar credibilidade por meio da marca.”

A segurança foi uma das apostas do Uber para conseguir abocanhar parcela do mercado antes dominado por táxis e cooperativas. Vista com desconfiança no início das operações, a companhia precisou criar processos de verificação de antecedentes criminais dos motoristas. E lançou ferramenta que permite a terceiros visualizarem o trajeto da corrida em tempo real.

Mesmo assim, a companhia chegou a ter a imagem marcada por casos de violência em alguns países, como EUA e Índia. Hoje, a marca conseguiu construir uma reputação e impulsionou o sistema de avaliação de uso como modelo de segurança. Motoristas e passageiros mal avaliados são excluídos da plataforma.

“O Uber e outros serviços, como o Airbnb, conseguiram superar o medo das pessoas em negociarem com desconhecidos. Hoje, isso já é normal”, avalia Celso Fortes, da Novos Elementos.

Mas, apesar das vantagens oferecidas a quem está em busca de uma renda extra, o especialista alerta sobre os riscos de aventuras mal planejadas. Todas essas plataformas cobram uma porcentagem do valor negociado e, no fim, o aspirante a empreendedor pode acabar perdendo dinheiro.

“Antes de entrar nessa, lápis e papel na mão para fazer contas. Não adianta se empolgar, achando que vai alugar um quarto na casa ou dirigir para o Uber e ficar rico. Não vai”, diz Fortes. “Também é bom conversar com alguém que já esteja atuando, disposto a compartilhar a experiência.”

 

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