Texto: Rita de Cássia Costa

Foto: Nathalia Cavalcante

Acompanhamos a odisseia de uma cadeirante para percorrer, em mais de uma hora, um trecho que qualquer andante faz em 15 minutos, um caminho cheio de obstáculos e desrespeito

Manhã de sábado nublado, nos encontramos às 11h05 com Lu Rufino no salão Lakshmi, único em Campo Grande onde, segundo ela, há verdadeira acessibilidade para pessoas com deficiência. Será ali que conversaremos com Lu e seu filho João sobre o transtorno cotidiano que ela enfrenta pelo simples fato de ter de se deslocar numa cadeira de rodas pelas ruas da nossa região.

Começo perguntando sobre a sua história: Lu é hoje cadeirante em consequência da poliomielite, a paralisia infantil, doença viral que afeta o sistema nervoso central e, com frequência, provoca debilidades e atrofias nos membros inferiores, hoje erradicada no país. Ela ficou doente aos 8 meses. Nascida numa favela, a jovem condenada a uma vida sem perspectiva  hoje incentiva outras pessoas com deficiência a enxergar esperança no futuro. Durante a nossa conversa, Lu, membro do Conselho Tutelar e militante pelos direitos dos cadeirantes à acessibilidade e à dignidade, descreve vividamente como se sente ilhada na região e como, diferentemente do que a maioria dos andantes fazem, precisa planejar meticulosamente um passeio ou uma simples ida ao banco.

Exatamente às 12h15 saímos em direção ao Calçadão de Campo Grande e, de lá, ao Passeio Shopping. Subindo pela rua Professor Gonçalves, algo que muitos de nós já fizemos, o primeiro momento de tensão: enquanto conversamos, Lu precisa de ajuda para se desviar dos buracos e das irregularidades no pavimento a fim de nos acompanhar. É preciso usar força para, em alguns momentos, sustentar a cadeira sem deixá-la cair. Em outros, nos vemos em meio aos carros, tendo de deixar a calçada, frequentemente ocupada por carros.

Lu tem um mapa mental muito preciso sobre os lugares “impossíveis” de passar. Ela não se equivoca. Um dos mais contumazes é uma madeireira localizada na Estrada do Cabuçu, que usa a calçada como depósito improvisado de toras e estacionamento de caminhões de carga e descarga. Já houve denúncias, mas a situação se mantém. Além de lá, as travessias entre os dois lados de uma região marcada por uma cicatriz na paisagem, a linha do trem, não é nada fácil. Nas estações da SuperVia não há elevadores para auxiliar os cadeirantes, simplesmente impedindo-os de seguir caminho de um lado para outro. Na rodoviária, que poderia ser uma alternativa, mesma coisa: não há elevadores e nem sequer rampas.  

Voltando ao nosso trajeto, ela demonstra bom humor, apesar dos buracos e da ocupação irregular dos passeios. Quando pensamos que ela pode cair em alguns trechos, responde dizendo que, com treinamento em jiu-jítsu, está preparada.  

A visibilidade é mesmo o melhor elixir para o descaso. Se muitos de nós, no dia a dia, não param para pensar nas agruras de uma pessoa com dificuldade de locomoção, durante nosso passeio – talvez atraídos pela presença de uma câmera –, muitos transeuntes nos abordam para manifestar sua indignação pelo estado das calçadas, pela ocupação irregular, pela ausência de rampas de acesso e outros elementos mínimos numa cidade democrática. Paciente, Lu repete que a empatia despertada infelizmente não se vê refletida em verdadeiros implementos. Para ilustrar sua fala, aponta para inúmeros casos de lojas sem acesso para cadeirantes, com degraus, corredores estreitos e mercadorias atrapalhando a passagem.

Postes no meio do caminho, falta de fiscalização sobre a ocupação dos passeios por camelôs e lojistas, caminhões de carga e descarga transversalmente ocupando toda a calçada: nada do que vemos e ouvimos de Lu é caso isolado. Uma longa hora depois, chegamos ao destino final, o Passeio Shopping. Ironicamente, para cadeirantes como ela, é um dos únicos “passeios” possíveis em Campo Grande.

São 13h15 quando colocamos o ponto final num trajeto de pouco mais de um quilômetro. Uma hora inteira gasta num deslocamento que um pedestre, em velocidade normal, faria em 15 minutos. Somado o tempo à tensão constante com os obstáculos, cansa, exaure qualquer um. E é o que ela precisa enfrentar sempre que se atreve a tentar usar nossas calçadas.

Para evitar mais uma hora de sofrimento, deixamos Lu de carro no ponto de partida, onde ela própria vai dirigindo. Na nossa equipe, o assunto ecoa durante a tarde. E, no almoço, o carro não fica sobre a calçada que serve como estacionamento irregular do restaurante. Desta vez, tomamos o cuidado deliberado de não atrapalhar a passagem. Nossa sensibilidade já é outra.