Mortes intencionais crescem 57% no segundo quadrimestre do ano em relação a 2015 na área de Campo Grande. Roubos a transeuntes também têm alta expressiva de 55%. Em todo o território fluminense, homicídios praticados pela polícia crescem 54,5%.

O segundo quadrimestre do ano teve nova disparada nos índices de assassinatos e crimes violentos no Estado do Rio, e a região de Campo Grande não escapou dos números sangrentos. Enquanto a capital celebrava os Jogos Olímpicos, sob a vigilância de 88 mil agentes, a criminalidade não deu trégua de maio a agosto, e o número de mortes saltou 57% na 40ª Área Integrada de Segurança Pública (AISP), que integra os bairros de Campo Grande, Santíssimo, Senador Vasconcelos, Inhoaíba e Cosmos. Segundo dados da própria Secretaria estadual de Segurança Pública, houve 22 assassinatos por aqui de maio a agosto, contra 14 no mesmo período do ano passado. No Estado do Rio, o bangue-bangue é espantoso: foram 1.498 mortes intencionais no mesmo período, contra 1.261 no quadrimestre equivalente de 2015. Ou seja, quase 19% de alta.

A crise financeira sem fim que o estado enfrenta, reflexo da queda dos preços do petróleo (commodity que representa quase um terço das nossas receitas) e de uma gestão deficiente dos recursos públicos, vem se refletindo em notáveis cortes no orçamento das polícias Civil e Militar. Como a SUCESSO revelou em sua edição de julho, a 35ª DP (Campo Grande) opera no limite de sua capacidade, com o fim das horas extras pagas a policiais – e a consequente diminuição das diligências –, a falta de insumos básicos, como lâmpadas, material de escritório e até papel higiênico, e a “aposentadoria” compulsória de 30% da frota de veículos para poupar combustível. “Amigos e empresários da região estão ajudando com doações”, revelou o delegado-titular, Marcelo Ambrósio. De janeiro a abril já se havia registrado um grande salto no número de crimes violentos na região, com alta de 129% no total de assassinatos em relação ao mesmo período de 2015.

Fontes das polícias Civil e Militar na região, que pediram para não ser identificadas, denunciam desde então uma piora considerável das condições de trabalho e cortes ainda mais duros no orçamento, afetando as investigações. Isso se reflete nos números. A Grande Campo Grande teve 686 assaltos a pedestres de maio a agosto, 55% mais que os 442 dos mesmos meses de 2015.

Um trabalho de inteligência levado a cabo pela 35ª DP continua a dar bons frutos, e o bangue-bangue não se verificou nos roubos a estabelecimentos comerciais ou cargas, que tiveram quedas – de 53 para 45, no caso dos primeiros, e de 92 para 70 nos assaltos aos caminhões. Mas os aumentos nas mortes e nos assaltos a pedestres mostram que o cidadão comum é o mais afetado.

Se analisadas todas as regiões do Estado do Rio de Janeiro, o quadro é alarmante. Quando se somam as modalidades de assassinatos (homicídios dolosos, ou intencionais), lesões corporais seguidas de morte, latrocínios (roubos seguidos de morte) e autos de resistência (pessoas assassinadas pela polícia em serviço), o total alcançou 1.894 de maio a agosto, um salto de mais de 25% em relação aos 1.511 dos mesmos meses do ano passado. Os autos de resistência chamam particularmente a atenção: foram 306, contra 198 em 2015. Ou seja, 54,5% mais.

Depois de oito anos de queda nesse tipo de ocorrência – seguidamente denunciado como execução sumária por ONGs internacionais, como a americana Human Rights Watch –, a tendência volta a se inverter. Em julho, essa organização divulgou um relatório segundo o qual os policiais do Rio de Janeiro mataram 8 mil pessoas em uma década. O ano de 2013 registrou o menor número de pessoas mortas pela polícia fluminense desde 2007, quando começou a queda: 400, número que voltou a subir em 2015 para 645, segundo dados oficiais.

A região de Campo Grande, nesse sentido, é uma feliz exceção. Se, nos oito primeiros meses de 2015, houve apenas um auto de resistência aqui, este ano de 2016 continua com zero morte pela polícia na 40ª AISP. Essa política de confrontação “inteligente” foi explicitada à SUCESSO pelo comandante do 40º BPM (Campo Grande), tenente-coronel Marcos Neto. “A sociedade precisa deixar de nos associar a repressão e ditadura.” Procurada, a Secretaria estadual de Segurança não respondeu ao nosso pedido de entrevista até o fechamento da edição 47 da Revista Sucesso.

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