ACICG lança iniciativa para recuperar projeto original de Burle Marx e devolver a beleza ao eixo principal de Campo Grande, por onde passam 200 mil pessoas todos os dias

Associação instala quiosque junto ao Mercado São Brás e, a partir de lá, cuidará do mobiliário urbano da área

 

Por Rita de Cássia Costa

 

É um dos símbolos de identidade de Campo Grande, algo que nos distingue numa cidade repleta de tantos ícones. O Calçadão faz parte do nosso dia a dia, é um ponto de encontro de mais de 200 mil pessoas por dia, um eixo de passagem, um centro de compras, serviços, diversão. Inaugurado há 40 anos a partir de um projeto do urbanista e paisagista Roberto Burle Marx, hoje está descaracterizado e sofre com a má conservação. Diante da falta de ação das sucessivas administrações municipais, uma iniciativa liderada pela Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), em parceria com o Escritório Burle Marx, que administra a obra do paisagista, pretende recuperar a essência original dessa área de vital importância para a nossa região.

“O projeto foi pensado para privilegiar o pedestre, sem circulação de veículos na área, criando uma área sombreada agradável para o caminhar e o descanso. O calçadão sempre teve uma vocação para comércio e serviços, e a sua criação visava a transformar o espaço de passagem em uma experiência aprazível”, afirma Isabela Ono, coordenadora de projetos do escritório. “O desenho de piso junto das lojas foi alterado, as áreas de bancos também foram modificadas, com o acréscimo de bancos curvos, sendo que os originais eram retangulares. Foram incluídas ainda esculturas, não previstas originalmente.”

Como um primeiro passo para marcar sua presença na área, a ACICG conseguiu alvará para o lançamento de um quiosque no Calçadão, próximo ao Mercado São Brás. O posto avançado tem como proposta dar maior assistência ao associado e a quem precisa de opiniões creditícias com informações de SPC e Serasa. Também haverá divulgação de iniciativas da associação e informações sobre o próprio Calçadão. Mas não só: segundo Guilherme Eisenlohr, presidente da ACICG, esse posto avançado será uma espécie de sede informal do projeto de recuperação.

“A ideia, totalmente espontânea, da associação é cuidar de todo o mobiliário urbano existente no Calçadão. Nós já até planejamos, através do Ministério Público, o emprego de mão de obra de presos que optem por trabalhos externos a fim de reduzir suas penas. Essas pessoas precisam prestar um serviço à sociedade, e nós precisamos de ajuda na manutenção dos monumentos, na limpeza do mobiliário urbano, coisas que, infelizmente, o poder público não vem fazendo”, afirma Eisenlohr.

Sobre a recuperação do projeto original, o presidente da ACICG afirma que dificilmente poderia ser bancada pela prefeitura. Daí a necessidade de unir os empresários locais.

“Sabemos que será difícil conseguir esse apoio, pois houve uma grande modificação dos empresários originais. Hoje, as lojas são majoritariamente de proprietários que não têm esse sentimento de pertencimento ao bairro. São empresas grandes, algumas até contribuem para desorganizar o Calçadão. O que queremos é fazer uma ocupação organizada e correta daquele espaço”, completa Guilherme Eisenlohr, agregando que a ACICG vai pedir a ajuda da Comlurb, dos órgãos de segurança pública e da Fundação Parques e Jardins nas ações de recuperação.

De acordo com o presidente da ACICG, apesar dos alertas feitos à prefeitura, todas as vezes em que eram realizadas ações de conservação do calçamento na região, ocorria alguma descaracterização do projeto original. Hoje, um passeio pelo Calçadão revela um verdadeiro mosaico descoordenado de diferentes pavimentos. Além de feio, é perigoso para o deslocamento, principalmente de pessoas com mobilidade reduzida.

CIRCULAÇÃO PREJUDICADA

Como a SUCESSO mostrou na edição passada, o solo repleto de buracos e desnivelamentos impede que cadeirantes ou idosos passem pelo Calçadão sem percalços. A cozinheira Maria de Lourdes, moradora de Guaratiba, é uma das que se queixam. Com uma fratura em um dos joelhos, ela precisa caminhar devagar para não correr o risco de uma queda. No Calçadão, tem cuidado redobrado: “A gente passa por aqui porque precisa fazer compras ou mesmo para chegar à estação, mas é complicado. Tem sempre um buraco, um paralelepípedo solto, alguma coisa que possa me fazer tropeçar, como acontece com qualquer pessoa, independentemente de ter esse problema como eu. Além disso, a gente vê tudo muito desorganizado, nada combina. Parece que foi tudo mal feito”, opina.

Depois das 16h de sábado ou no domingo durante todo o dia, o Calçadão de Campo Grande perde o habitual movimento dos dias da semana. Com o novo projeto de manutenção da área que deve chegar concomitante à implementação do quiosque, a ACICG pretende reformular também a programação do fim de semana: a proposta é criar eventos culturais e uma agenda intensa para estimular a ocupação permanente pela população.

“Nós queremos levar até ali, aos domingos, grupos de artesãos para desenvolver o verdadeiro trabalho do artesanato de uma forma muito organizada. Também temos a ideia de levar até lá food trucks, já que não temos nenhum restaurante ou barzinho. Por meio deles poderemos resolver o problema da alimentação. Também está nos planos promover a apresentação de corais, por exemplo”, enumera Guilherme Eisenlohr.

A ideia é revitalizar a cultura do bairro de forma organizada, sem camelôs irregulares. Mas os projetos não param por aí. Um dos sonhos da ACICG é a construção de uma cúpula translúcida com retenção de caloria acima da copa das árvores, porém sem fechar as laterais. Essa instalação daria aos comerciantes a oportunidade de trabalhar em um período maior, convertendo o Calçadão num verdadeiro shopping a céu aberto e criando um modelo de referência no Rio de Janeiro.

CENTRAL DE MONITORAMENTO INSPIRADA NA BARRA

Outro problema recorrente no Calçadão é a falta de segurança – que afeta, como sabemos, toda a cidade. Uma iniciativa inspiradora implantada na Barra poderia ser replicada aqui, e a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande lança essa ideia.

Por lá, a Associação Comunitária Bairro Seguro (ACBS), com apoio de associações comerciais como a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio De Janeiro – ABIH-RJ; Rio Convention & Visitors Bureau; Barralerta; Acibarra; Acir Transoeste; Amar e Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, criou uma Central de Monitoramento com câmeras operando ininterruptamente na 31ª Área Integrada de Segurança Pública.

O projeto piloto é uma plataforma on-line de informações de segurança que permite o acompanhamento de imagens 24 horas por dia geradas por mais de 100 câmeras da prefeitura instaladas nas ruas. Analisadas, as gravações têm suas informações compartilhadas com o poder público, que pode tomar decisões sobre aumento de efetivo em regiões com mais assaltos, por exemplo. A parceria público-privado, que promete garantir segurança para os moradores e comerciantes da região, engloba bairros como Barra, Recreio, Vargens, Barra de Guaratiba, além de outros, mas também cobre áreas de fronteira como Cidade de Deus e Rocinha.

Rodrigo Taveira, sócio diretor do grupo Unicad, que assina a área técnica da Central de Monitoramento, ressalta a segurança como problema crônico do Rio e diz que a Barra foi escolhida como bairro piloto por despontar como novo polo de turismo e por ter acolhido grandes eventos recentemente e destaca o investimento da iniciativa privada.

“O gasto público com segurança costuma ser concentrado em reforço de equipes e turnos, viaturas, equipamentos, além de estruturas de delegacias e carceragem. A nossa iniciativa foca em contribuir com a área de inteligência e prevenção. Estamos abertos a expandir o projeto para outros bairros”, completa Rodrigo. Serão feitos relatórios frequentes a partir da análise e monitoramento, compartilhadas com o Conselho Comunitário de Segurança e direcionados aos órgãos responsáveis.

Foto: Nathália Cavalcante